segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Entrevista com os actores Sandro William Junqueira e Aires Ramos

Sandro William Junqueira nasceu em Umtali, na Rodésia, actual República do Zimbabué, há 36 anos. Em 1976, voltou para Portugal. Passa pelas Caldas da Rainha, Setúbal e Lisboa. Em 1986, vem viver para Portimão. Trabalha como designer gráfico, actor, encenador, professor de teatro e escritor. Em 1999, fundou o grupo de teatro “A GAVETA”, onde trabalhou como actor, encenador e responsável artístico. A partir de 2002, publicou com regularidade poesia e contos em revistas. Editou dois livros, "É preciso este silêncio", pela editora Amores Perfeitos e “O Caderno do Algoz”, pela Editora Caminho.
Aires Ramos nasceu há 49 anos, em Leça da Palmeira. Considera que “quase” já viveu por todo o mundo. É músico, compositor e professor de música. Formou-se na Escola de Jazz do Porto, onde também leccionou durante sete anos. Fez parte integrante de projectos musicais com Pedro Abrunhosa e Rita Ribeiro e de projectos teatrais com o grupo de teatro “A GAVETA”.
Em 2007, ambos iniciam um trabalho regular em escolas e bibliotecas com a criação e interpretação de diversos ateliês e espectáculos vocacionados para a promoção do livro e da leitura.


Entre Vistas - Quando é que decidiram tornar-se actores?
Sandro – Foi há doze anos atrás. Conheci uma pessoa ligada ao teatro que me incentivou a experimentar… experimentei … e depois disso, não quero outra coisa.
Entre Vistas - Como é que nasceu o projecto “Livro Que Ladra Não Morde”? E quando?
Sandro – Este projecto nasceu a partir de um convite que me foi feito para fazer um espectáculo, que tivesse como objectivo a promoção do livro e da leitura, dirigido para as escolas e bibliotecas e integrasse o Plano Nacional de Leitura. Juntei-me com o Aires, numa cave, durante uma semana, levei uns textos, o Aires levou a guitarra, e a partir daí, nasceu este espectáculo a que vocês assistiram.
Entre Vistas - Porque escolheram o nome “Livro Que Ladra Não Morde”?
Sandro – Porque é engraçado. Queríamos desmistificar aquela ideia de que os livros são coisas chatas e aborrecidas. Alguns são! Mas, a maioria dos livros não o são. A nossa ideia era de brincar com os livros e com a ideia de que livro que ladra não morde.
Entre Vistas - Para que público costumam actuar?
Sandro - Para vocês… geralmente para alunos do 2º ciclo. Temos outros projectos para pessoas mais velhas, alunos do secundário. Mas, este aqui é direccionado para alunos do 2º ciclo.
Entre Vistas - Onde vão buscar a inspiração para o vosso trabalho?
Aires - Não sabemos bem! É uma coisa que acontece naquele momento.
Entre Vistas - O que é que geralmente pode correr mal numa peça?
Sandro – Nunca nada corre mal! Habitualmente, o público não sabe aquilo que vai ver, e se alguma coisa corre mal… eles pensam que aquilo faz parte do espectáculo. Nós dizemos que na Arte não há erros! Às vezes, acontecem imprevistos. Por exemplo, se tivesse entrado aqui um cão a ladrar mesmo a sério, era um imprevisto. Nós temos que aproveitar essas coisas que acontecem e tentar dar a volta.
Entre Vistas - Qual é a sensação de estar a actuar em frente a um público?
Sandro – Em primeiro lugar, medo!
Aires - Responsabilidade!
Sandro – … e depois, temos de nos divertir e de oferecer algo ao público.
Entre Vistas - Como é ser actor e músico em Portugal?
Aires – É muito difícil!
Sandro – É difícil! Não é fácil! Tem que se trabalhar muito. Mas é muito recompensador ser actor.
Entre Vistas - Qual é o vosso grande sonho?
Aires – É viver muitos anos!
Sandro – O meu também! É viver muitos anos, e se puder continuar a fazer aquilo que eu mais gosto… era óptimo.

Sandro Junqueira e Aires Ramos ao Raio X

Entre Vistas - Brinquedo que mais vos marcou?
Sandro – O brinquedo que mais me marcou foi um comboio eléctrico.
Aires – Já não me lembro…
Entre Vistas - Prato de comida favorito?
Sandro – Eu adora massa, esparguete, lasanha… tudo o que tenha massas.
Aires – Arroz com feijão e jaquinzinhos.
Entre Vistas - Cidade preferida para viver?
Sandro – Eu gosto muito de Lisboa. Mas agora, onde, eu gostaria de viver, era em Berlim. A cidade que eu acho mesmo fantástica para viver, tirando o calor, é Sevilha.
Aires – Desde que seja perto do mar, qualquer uma serve.
Entre Vistas - Livro que mais gostaram de ler?
Sandro – São tantos livros… Mas, vou escolher o poema “A Tabacaria” de Álvaro de Campos.
Entre Vistas - Músico preferido? -
Aires – Francisco Tarrega.

Entrevista conduzida por Gonçalo Alexandre, João Carvalho e Lara Reigado
Guião da entrevista - produção colectiva 5.º B (2010/11)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Entrevista com a Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira, Maria Helena Santos Serra

  Maria Helena David de Abreu dos Santos Serra nasceu no Huambo (Angola), há 79 anos. Casada, é mãe de sete filhos. Aos sete anos, juntamente com os irmãos, partiu para Portugal para poder continuar os estudos. Frequentou o 1.º ano, do curso de Românicas, na Universidade de Coimbra. Após o 25 de Abril de 74, foi tesoureira da Junta de Freguesia de Albufeira e vereadora com atribuição da vice-presidência da Câmara Municipal de Albufeira, durante seis meses. Actualmente é Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira.


Entre Vistas - Quando é que iniciou funções como provedora na Santa Casa de Albufeira?
Maria Helena Serra – Há 32 anos, no dia 28 de Maio.
Entre Vistas - Quais são as funções de um provedor?
Maria Helena Serra – As funções de Provedor são supervisionar toda a instituição, tentar dar um bom ambiente de trabalho a quem nela labuta, receber todos os que nos procuram e tentar remediar os males que nos são propostos. Numa Misericórdia ninguém nos procura para nos dizer que lhe saiu a sorte grande ou que vive muito feliz. Quem nos procura são pessoas que têm algum sofrimento ou alguma carência. Nós procuramos ser a resposta para todos os problemas humanos que nos apareçam.
Entre Vistas - Quais são as actividades realizadas pela Santa Casa da Misericórdia de Albufeira?
Maria Helena Serra – São muitas…vão sendo realizadas graças ao esforço da provedora e de todos os elementos que aqui colaboram, e que são muitos, vão podendo responder. Temos um lar de 3.ª idade, um lar de jovens, um lar da 1.ª Infância, um lar para doentes mentais, em Paderne, o lar de S. Vicente para doentes debilitados fisicamente e mentalmente, a creche-infantário da Guia, a creche-infantário Quinta dos Pardais, a creche-infantário Arco-Íris, a Casa da Esperança, para doentes de SIDA e os sem abrigo, a Casa da Cegonha que recebe as mães solteiras e as mulheres vítimas de mal tratos, a empresa de inserção social “Jasmim”, que procura dar resposta ao 1.º emprego e a desempregados de longa duração, a escola profissional para pessoas portadoras de deficiência, a empresa “Tapete Mágico”, uma cooperativa de cinco pessoas com deficiência, que trabalham manualmente com teares, o CNO – Centro de Novas Oportunidades, na escola Bússola, onde cerca de 400 pessoas tentam completar as suas habilitações, com o propósito de uma promoção intelectual e social, a empresa “Espaço Verde”, onde se ensina e se fazem trabalhos de jardinagem remunerados, que visa a inserção social e profissional, a Casa da Paz, um espaço sócio-ocupacional para doentes mentais externos que nos procuram para passar o seu dia e ter alguma ocupação, o Jornal “A Candeia”, participamos no Micro-crédito, com um funcionário da Santa Casa, lá destacado, participamos na Comissão de Protecção de Jovens e Crianças, fornecemos apoio domiciliário simples integrado no ADIP. Penso que não me escapa mais nada… o que já não é pouco... temos também anexo à capela, temos um pequeno Museu, onde estão alguns documentos antigos, autênticas preciosidades. Encontra-se lá, um livro, muito interessante, chamado Livro dos Passantes, do século XVIII, onde ficaram registadas as pessoas que pediram ajuda à Misericórdia e onde podemos encontrar pessoas de quase todos os países da Europa. Esta Misericórdia é uma das mais antigas do país, já fez 500 anos. Apesar de ter sido uma Misericórdia pobre sempre aceitou ser remédio para quem a procurava.
Entre Vistas - Que tipo de auxílios presta a Santa Casa da Misericórdia de Albufeira?
Maria Helena Serra – A Santa Casa da Misericórdia de Albufeira procura dar resposta a todas as situações de infelicidade que atinjam as pessoas, procuramos diminuir e se possível apagar completamente todo o sofrimento humano.
Entre Vistas - Quem é que a Santa Casa da Misericórdia de Albufeira apoia? Quantas pessoas são apoiadas?
Maria Helena Serra – Todos as pessoas que precisam das valências anteriormente enumeradas. Por dia, nós servimos uma média de 500 pessoas.
Entre Vistas - Como é que sente quando ajuda as pessoas?
Maria Helena Serra – Sinto uma enorme felicidade quando consigo resolver os problemas que me são colocados. Chego a perguntar-me, se me sinto feliz porque consegui resolver o problema ou se porque resolvi o problema da pessoa.
Entre Vistas - É difícil lidar com os problemas do dia-a-dia?
Maria Helena Serra – É muito difícil. Lidar com problemas humanos não é a mesma coisa do que lidar com pacotes de açúcar bolos ou café.
Entre Vistas - Quais são os projectos para o futuro da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira?
Maria Helena Serra – Os projectos são muitos, só que, infelizmente, o dinheiro não é nenhum… Nem sequer posso dizer que é pouco… Simplesmente, não existe dinheiro para se poder avançar para novos projectos. Tenho avançado com a força da fé que tenho. Sou uma mulher Cristã, com muita fé. Eu não digo Católica, digo Cristã. Cristão engloba tudo. A Santa Casa não tem opiniões políticas nem religiosas. Eu sou uma mulher com muita fé. Acredito que Deus não dorme. Está sempre acordado e virá em nossa ajuda. Tenho a esperança de colocar em funcionamento o velho hospital com cuidados continuados para os mais pobres.
Entre Vistas - Quando é que pensa abandonar o cargo de provedora?
Maria Helena Serra – Estará para breve porque a minha saúde já não é muita. A minha condição física já não me permite fazer tudo aquilo que eu pretendo, posso e devo fazer.
Entre Vistas - Qual é o seu maior sonho?
Maria Helena Serra – O meu maior sonho é de que, quem me suceder não deixe morrer a obra começada.

Maria Helena Santos Serra ao Raio X
Entre Vistas - Um brinquedo preferido?
Maria Helena Serra – Uma bola.
Entre Vistas - Música preferida?
Maria Helena Serra – Do compositor Chopin.
Entre Vistas - Livro que mais gostou de ler?
Maria Helena Serra – A Bíblia Sagrada.
Entre Vistas - O filme da sua vida?
Maria Helena Serra – Não tenho só um filme na minha vida. Tenho muitos filmes. Mas, há um que gostaria de destacar “O Carteiro”, de Pablo Neruda.
Entre Vistas - Prato de comida favorito?
Maria Helena Serra – Sopa.
Entre Vistas - Estação do ano preferida?
Maria Helena Serra – A Primavera.
Entre Vistas - Um dia especial?
Maria Helena Serra – O dia de Natal.
Entre Vistas - O que mais detesta?
Maria Helena Serra – A inveja, o cinismo e a mentira.
Entre Vistas - O que mais lhe dá prazer?
Maria Helena Serra – A verdade, a solidariedade e a paz entre todos
Entre Vistas - Um desejo?
Maria Helena Serra – Que o mundo se transforme num lugar de paz e de convívio, em que todos possamos ser de facto irmãos, como é o desejo e o sonho de uma grande maioria. Não é preciso sermos iguais é preciso é sermos irmãos.
Entrevista conduzida por Cristiana Ninhos e Miguel Correia
Guião da entrevista - produção colectiva 6.º D (2009/10)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Entrevista ao declamador, escritor, actor e músico Afonso Dias

      Afonso Dias nasceu há 60 anos, em Lisboa, mas considera-se alentejano de coração. Veio viver para o Algarve em 1984. É um artista multifacetado, músico, cantor, escritor, poeta, contador de histórias, declamador, encenador e actor. Foi deputado à Assembleia Constituinte de 1974, pela UDP. Como músico, foi um dos fundadores, em 1974, do GAC – Grupo de Acção Cultural, com o qual efectuou inúmeras apresentações no país e no estrangeiro, assim como editou diversos discos. Ao longo da sua carreira integrou espectáculos com artistas como José Afonso e Sérgio Godinho, entre outros, tendo editado vários álbuns a solo. No âmbito do teatro, foi fundador, em 1999, da Trupe Barlaventina – Jograis do Algarve, com a qual realizou inúmeros espectáculos. Inicia em 2003, uma ligação de trabalho e cooperação com a ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve) como encenador, actor, e cantor. Desde 2001, dinamiza nas escolas algarvias e de outras zonas do país, centenas de sessões de poesia.

Entre Vistas - Como é que se apaixonou pela poesia?
Afonso Dias – Tudo aconteceu muito cedo. Tanto quanto me lembro, ainda antes da entrada na escola Primária. A minha mãe gostava muito de cantar. Eu lembro-me de ser pequenito… e, ela me contar e cantar histórias. Julgo que tudo começou por aí... Na escola Primária, eu gostava muito dos poemas por causa da rima. A rima é uma espécie de música, ou música de facto. Julgo que foi muito cedo que me apaixonei pela poesia. Depois, comecei, mais a sério, a trabalhar com a poesia, por causa da música e do teatro, quando eu tinha catorze anos. A partir daí, foi sempre o construir de uma longa paixão.
Entre Vistas - Que poetas mais o influenciam?
Afonso Dias – Há uns quantos poetas que eu gosto especialmente. Não sei dizer bem, se me influenciam, ou não, na minha maneira de escrever poesia. Mas, eu gosto muito de poetas portugueses. Vou dizer-vos só uns quantos. Antes de mais, um poeta superior, Camões e depois, começando a viajar no tempo o Bocage, o Guerra Junqueiro, o Miguel Torga, a Sophia de Mello Breyner, o Alexandre O’Neill, o Eugénio de Andrade e para terminar a Natália Correia.
Entre Vistas - Que papel tem a música na sua vida?
Afonso Dias – A minha vida tem várias coisas com papéis principais, a minha família, os meus filhos, os meus netos… tenho alguns, os meus amigos, o meu trabalho. Tudo isto tem um papel principal. A música tem um grande papel na minha vida. Não consigo viver sem música.
Entre Vistas - É difícil viver de ser actor, em Portugal?
Afonso Dias – É difícil, mas creio que não é mais difícil do que noutros países. Há muitos actores que não conseguem ter trabalho regular. Por outro lado, os que conseguem ter trabalho regular, uns ganham muito mal, outros tem a felicidade de trabalhar em companhias que têm mais dinheiro e que lhes podem pagar melhor, outros têm acesso à televisão, vão a castings e depois são seleccionados e ganham melhor. É difícil… mas, se calhar é tão difícil como em qualquer outra profissão. É uma profissão instável.
Entre Vistas - Qual é a arte em que gosta mais de se exprimir?
Afonso Dias – Eu julgo que na poesia. Eu divido-me entre a poesia e a música. Mas, gosto muito das outras artes todas, da pintura, da escultura, do teatro, do cinema, da dança… eu acho que a poesia tem um papel igual nas artes todas. A poesia acaba por inspirar todas as outras expressões artísticas. Eu colocava a poesia em primeiro lugar.
Entre Vistas - Em Portugal, como é a vida de um artista?
Afonso Dias – É uma vida de trabalho. Quem trabalha nisto tem que se dedicar a isto, o tempo todo, como noutra profissão qualquer. Na minha área artística tem que se trabalhar muito, ou seja, tem que se ler muito, pesquisar muitas coisas, certos textos, certos autores, certas épocas, certas situações. No que diz respeito à música tem que se treinar muito. É um trabalho intenso como em quase todas as profissões.
Entre Vistas - Neste dia dedicado à poesia, que mensagem gostaria de transmitir aos jovens?
Afonso Dias – Aproveitem e descubram os segredos mágicos que a poesia tem… porque tem.

 
Afonso Dias ao Raio X

Entre Vistas - Um livro preferido?
Afonso Dias – É difícil escolher, mas vou destacar “A Montanha Mágica” de Thomas Mann.
Entre Vistas - Um autor ou uma autora preferido?
Afonso Dias – Sophia de Mello Breyner…poesia.
Entre Vistas - Canção favorita?
Afonso Dias – Isso é muito complicado, mas vou escolher “Era um Redondo Vocábulo” de Zeca Afonso.
Entre Vistas - O filme da sua vida?
Afonso Dias – Não tenho o “filme da minha vida”, mas posso destacar alguns. Vou destacar um mais antigo e um recente. O mais antigo é o “Shane”, um filme de cowboys, o mais recente é o “Mystic River”.
Entre Vistas - A cidade que mais gostou de visitar?
Afonso Dias – Praga, na República Checa.
Entre Vistas - A cidade que gostaria de visitar?
Afonso Dias – São Francisco, nos Estados Unidos.
Entre Vistas - Um dia especial?
Afonso Dias – O dia 25 de Abril de 1974
Entre Vistas - Maior virtude?
Afonso Dias – Ai isso eu não digo...
Entre Vistas - Maior defeito?
Afonso Dias – Teimoso. Sou muito teimoso.
Entre Vistas - Um desejo?
Afonso Dias – Que se cumprisse aquele preceito que diz que a falar é que a gente se entende. Porque se isso acontecesse, o mundo estava muito melhor do que está. Isso era o meu grande desejo, que nos entendêssemos só a falar. E que, vocês sejam muito, muito, muito felizes… bué…

Entrevista conduzida por Luís Cavaco, Mara Resende e Rodrigo Cardoso
Guião da entrevista - produção colectiva 6ºA (2009/10)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Entrevista ao violinista Laurentiu Simões Zapciroiu

      Laurentiu Simões Zapciroiu nasceu há 32 anos em Bucareste, na Roménia. É casado com uma portuguesa e vive há nove anos em Portugal. Na Roménia, colaborou com várias orquestras (Orquestra Sinfonia Bucareste, Orquestra Giurgiu, Orquestra Marea Neagra, Filarmonica do Estado "George Enescu", Orquestra Sinfónica da "Fundação Sergiu Celibidache"). Em Portugal, colaborou com as orquestras do Norte, das Beiras, da Madeira e Metropolitana, participou, ainda, no quarteto de cordas "Lusitano", como segundo violino. Em 2005, entrou para a Orquestra do Algarve como violino tutti e em 2007 iniciou o ensino de violino no Conservatório Regional de Vila Real de Sto. António.


Entre Vistas - Quando é que decidiu ser músico?
Laurentiu S. Zapciroiu - Não fui eu que decidi. Os meus pais colocaram-me numa escola de música. Comecei a aprender e a estudar música aos sete anos. Interessei-me, cada vez mais, pelo estudo do violino. Mais tarde, continuei os meus estudos na Academia Nacional de Música, em Bucareste. Depois, fui convidado para integrar orquestras e acabei por optar por uma profissão ligada à música.
Entre Vistas - O que é que é necessário para se ser instrumentista profissional?
Laurentiu S. Zapciroiu – Em primeiro lugar gostar de música, ter uma boa formação, ter um grande espírito de sacrifício para dedicar muitas horas ao trabalho com o seu instrumento, ser competente e finalmente ter uma pontinha de sorte.
Entre Vistas - É difícil ser músico em Portugal?
Laurentiu S. Zapciroiu – Essa é uma pergunta difícil. Não é fácil, mas quando o músico é competente também não é difícil. Para os bons músicos vai havendo trabalho.
Entre Vistas - Em que orquestras gostou mais de tocar?
Laurentiu S. Zapciroiu – Gostei de tocar em todas as orquestras. Gostei muito de tocar nas orquestras do meu país, a Roménia. Mas, também gosto muito de tocar na Orquestra do Algarve, já cá estou há nove anos, e estou muito feliz.
Entre Vistas - Qual foi para si o melhor local onde actuou? E o melhor público?
Laurentiu S. Zapciroiu – Eu gostei, sempre, de todos os países por onde passei. Já passei por vários, a Roménia, a Alemanha, a República Checa, a Áustria, a Itália, Portugal. Os públicos são diferentes assim como as orquestras e a música que se toca. Uns ficam mais emocionados e vibram mais, mas tudo depende do tipo de espectáculo. Eu gosto muito de tocar, por isso, gosto de ter público. Cada público responde consoante o reportório.
Entre Vistas - Quanto tempo demora a preparação de um concerto?
Laurentiu S. Zapciroiu - O tempo de ensaios depende muito das peças que vamos tocar, dos músicos e das orquestras com que vamos tocar. Normalmente, a preparação de um concerto demora dois dias de ensaio. Os ensaios realizam-se de manhã e de tarde. Quando os músicos e as orquestras são bons o tempo de ensaio é menor.
Entre Vistas - Em Portugal, os músicos são bem pagos?
Laurentiu S. Zapciroiu – Depende, os que estão nas boas orquestras são razoavelmente pagos. Poderiam ser melhor pagos, mas em comparação com as outras pessoas, em Portugal são bem pagos.
Entre Vistas - Qual é a melhor idade para se iniciar na música?
Laurentiu S. Zapciroiu - O mais cedo possível, quanto mais novo melhor. Mas, também não há uma idade máxima. Eu sou professor de música e, apesar de ter alunos a iniciarem aos dez anos, acho que ainda vão a tempo de se tornarem bons músicos. Mas, se gostarem de música, devem começar o mais cedo a aprender e a conhecer os instrumentos. Sou da opinião que, se deve iniciar a aprendizagem da música através do piano ou do violino.
Entre Vistas - Que conselhos daria a um jovem que quer ser músico?
Laurentiu S. Zapciroiu – Procurem uma escola de música ou um conservatório, perto do vosso local de residência. Escolham um instrumento musical que gostem de tocar. Experimentem vários instrumento até terem a certeza de qual é o instrumento que querem aprender. Depois, invistam muito no estudo e no trabalho com esse instrumento. É preciso muita dedicação e muito trabalho para nos tornarmos num bom músico.

Laurentiu Zapciroiu ao raio X

Entre Vistas - Livro que mais gostou de ler?
Laurentiu S. Zapciroiu – Agora, não me recordo de nenhum. Ultimamente, não tenho tido tempo para ler. Eu gosto de ler um livro de uma só vez. E, tenho tido muito pouco tempo para dedicar à leitura
Entre Vistas - O filme da sua vida?
Laurentiu S. Zapciroiu - Já não me lembro da última vez que vi um filme. O tempo livre que tenho, gosto de o passar com a família.
Entre Vistas - Música preferida?
Laurentiu S. Zapciroiu - Gosto de todo o tipo de música, desde que seja boa e bem tocada. Posso ouvir música clássica, pop , rock…
Entre Vistas - Cidade portuguesa preferida?
Laurentiu S. Zapciroiu - Eu gosto muito de viver em Faro, mas também gosto de todo o Algarve… Lisboa também é uma cidade muito bonita.
Entre Vistas - Cor preferida?
Laurentiu S. Zapciroiu - Não tenho nenhuma cor preferida. Gosto de todas as cores sem excepção.
Entre Vistas - País que mais gostou de visitar?
Laurentiu S. Zapciroiu – Gostei muito de todos. Mas, Itália e Suíça foram os países que gostei mais de visitar. São diferentes, mas bastante atractivos.
Entre Vistas - Um dia especial?
Laurentiu S. Zapciroiu - O do meu aniversário, o aniversário da minha filha e o dia do meu casamento.
Entre Vistas - Maior Virtude?
Laurentiu S. Zapciroiu - Ser honesto.
Entre Vistas - Maior defeito?
Laurentiu S. Zapciroiu - Ser chato… Sou muito perfeccionista.
Entre Vistas - O que mais detesta?
Laurentiu S. Zapciroiu - A mentira.
Entre Vistas - O que mais lhe dá prazer?
Laurentiu S. Zapciroiu - Estar com a família e trabalhar no que gosto.
Entre Vistas - Um desejo?
Laurentiu S. Zapciroiu - Um mundo melhor, em paz e que as crises terminem.

Entrevista conduzida por Andreia Silva, Gabriel Várzea e Shalana West
Guião da entrevista - produção colectiva 6ºA (2009/10)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entrevista ao investigador José António de Jesus Martins


Entre Vistas - Quais eram as Brincadeiras preferidas das crianças e dos jovens portugueses na Idade Média?
José A. J. Martins - As brincadeiras das crianças e dos jovens portugueses da Idade Média eram iguais às dos outros meninos da Europa. Havia dois tipos de classes sociais, propriamente ditas, os meninos mais ricos e os meninos mais pobres. Os meninos mais ricos brincavam com melhores brinquedos, mais coloridos, por exemplo, os tambores que eram decorados, os fantoches que eram pintados. Os meninos mais pobres brincavam com brinquedos e utensílios mais pobres e em menor quantidade. Aqui, no Algarve, foi descoberto, acerca de sete anos, numa escavação arqueológica, no museu de Silves, miniaturas para rapazes e para raparigas. Os arqueólogos encontraram, para as meninas, panelas, bolos e bonecas em miniatura. É engraçado, porque algumas das bonecas encontradas tinham uma barriga muito saliente. Isto quer dizer, que era, desde logo, uma educação e um convívio para a maternidade, porque elas estavam destinadas a serem mães. Para os meninos, eram mais aqueles cavalinhos de madeira e as espadas de madeira ou de metal. Conforme as classes sociais, assim, havia os brinquedos… e depois, naturalmente, as brincadeiras. Não se misturavam os nobres com o povo para brincar. Mas, havia momentos, nas praias, nos rios, nas pontes, em que, muitas vezes, se encontravam… e então… brincavam todos juntos. Mas, havia uma distinção entre os meninos e as meninas, e os meninos ricos e os meninos pobres.
Entre Vistas - Na Idade Média, nas brincadeiras e nos brinquedos, havia muitas diferenças entre Portugal e a Europa?
José A. J. Martins - As diferenças não são muitas. As grandes diferenças começam a aparecer com os descobrimentos portugueses, nos séculos XV e XVI. Os portugueses iniciam a aventura dos descobrimentos com a conquista de Ceuta, em 1415, e terminam, no século XVI, no reinado de D. Sebastião, com a entrega, pela China, de Macau a Portugal. São assim, estabelecidos contactos com povos de África, da América e do Oriente. Do Oriente chegam muitas coisas novas. Quem traz as mercadorias, traz também muitos artefactos, muitos materiais e muitas inovações que são adaptadas a Portugal, às classes sociais. Por exemplo, o xadrez e os jogos de cartas são adaptados a novas brincadeiras e a novos jogos. Podemos dizer que, até aos descobrimentos, as crianças portuguesas tinham o mesmo tipo de brinquedos e brincadeiras que os outros meninos da Europa, porque havia contactos dentro da Europa. A grande novidade acontece com os descobrimentos portugueses, sobretudo quando, nós chegámos à Índia e a outros pontos do Oriente.
Entre Vistas - Que comparações se podem fazer entre as brincadeiras e os brinquedos da Idade Média e as brincadeiras e os brinquedos actuais?
José A. J. Martins – Brinquedos ou brincadeiras? Quem é que surge primeiro? Eu acho que foram as brincadeiras que nasceram primeiro… espontâneas. Depois, há a necessidade de se ter qualquer coisa, para nos entretermos e que seja propriedade nossa. Os brinquedos e as brincadeiras nascem, assim, da vontade de entreter as pessoas, para servirem o lazer, como complemento às festas, associadas ao campo, à religião e outras. Os brinquedos, que nós temos hoje, nada têm a ver com os brinquedos de há quinhentos anos atrás. Agora, temos a tecnologia de ponta. São consolas, são uma quantidade de jogos que hoje adquirimos. Estão sempre a aparecer coisas novas. Isso tem a ver com uma coisa, que não existia naquele tempo, que é o consumismo actual. Muitos brinquedos, que nós hoje conhecemo, têm origem no século XIV e no século XV. Aquilo que havia até ao inicio do século XX, num país ainda muito rural, muito conservador, eram brinquedos oriundos dos séculos XIV e XV. Eu vou dar-vos o meu próprio exemplo. Quando tinha oito, nove anos lembro-me de construir papagaios de papel. A sua construção era simples. Eu ia apanhar umas canas, secava-as, unia-as em cruz e atava-as com um cordel ou uma corda. Depois, comprava ou pedia papel de seda muito leve e colava-o às canas com cola de farinha. Punha um rabinho de pano ou papel mais pesado. Atava o papagaio a um cordel para poder correr pela praia ou pela rua. E, o papagaio levantava voo. Era muito bonito. Aquilo durava uma ou duas horas. Hoje, nós compramos os papagaios já feitos, em estruturas superleves de metal ou PVC, e aquilo dura muito mais tempo. Hoje, temos muitos brinquedos com mecanismos complexos ou electrónicos que não existiam naquela altura. Mas, os brinquedos que, ainda hoje, podemos encontrar em feiras de artesanato ou em lojas de artesãos, em madeira ou metal, têm uma origem muito antiga e vêm desses séculos.

José António de Jesus Martins ao Raio X

Entre Vistas – Um brinquedo preferido?
José A. J. Martins – O papagaio de papel, construído por mim.
Entre Vistas – Local preferido para passar férias?
José A. J. Martins - Na Florida, no Cabo Canaveral.
Entre Vistas – Música preferida?
José A. J. Martins - Gosto de música clássica. A música clássica dá-me muita paz de espírito.
Entre Vistas – Livro que mais gostou de ler?
José A. J. Martins - Gostei de ler muitos livros. Há um, que eu gosto sempre de rever e que tem a ver com as ilustrações na Idade Média. É um livro que eu comprei nos Estados Unidos e que eu não encontro à venda aqui na Europa.
Entre Vistas – O filme da sua vida?
José A. J. Martins - “O Caçador”, com o Roberto de Niro. Tenho a “Colecção de Ouro” do Roberto de Niro.
Entre Vistas - Um dia especial?
José A. J. Martins - O nascimento da minha filha, dia 24 de Setembro.
Entre Vistas – Maior Virtude?
José A. J. Martins - A nossa maior virtude, e não falo por mim, tem que ser a humildade. Saber, de facto, aceitar os momentos menos bons da vida. E, regozijar e sentir-se bem com os momentos mais importantes da vida.
Entre Vistas – Maior defeito?
José A. J. Martins - O perfeccionismo. Gosto, sempre, de fazer as coisas o melhor possível, mesmo quando não é possível.
Entre Vistas – O que mais detesta?
José A. J. Martins - Falta de tempo. Trabalho das 8.30 até à meia-noite. Agora, também, sou professor numa escola. Saio de casa, às 8.10 e regresso a casa, à meia-noite e dez.
Entre Vistas – O que mais lhe dá prazer?
José A. J. Martins - Não ter nada que fazer.
Entre Vistas – Um desejo?
José A. J. Martins – Saúde… o mais importante.
Entrevista conduzida por Joana Fontoura e Tiago Jesus
Guião da entrevista - produção colectiva 6ºA (2009/10)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Entrevista ao artista plástico António Bota Filipe

António Bota Filipe nasceu há 78 anos e é um Coronel do exército na reforma. Nos anos oitenta, decidiu dedicar-se ao estudo das artes plásticas e da arquitectura. Em Abril de 1993, juntamente com a esposa, num terreno de três hectares que pertencia à sua avó Josefa, iniciou a construção do ZEFA - a Cidade da Arte, o maior centro de arte contemporânea privado em Portugal, no Sítio das Pereiras, em Almancil, constituído por vários edifícios e onde se pode ver artes plásticas, arquitectura, urbanismo e ambiente, tudo no mesmo espaço. É um local privado, mas ao mesmo tempo público, pois qualquer pessoa pode visitar o ZEFA. Totalmente financiado pelo casal, o centro ZEFA não teve qualquer apoio do Estado, nem qualquer apoio de mecenato privado. É neste espaço que António Bota Filipe expõe as suas criações artísticas.


Entre Vistas - Como é que nasceu a ideia da criação e construção deste parque?
António Bota Filipe - Por influência de um professor que eu tive de Matemática, Cálculo Comercial e Físico-químicas. Em todas as aulas, ele dedicava um quarto de hora à cultura. Isso marcou-me muito… eu gostaria também de poder marcar os outros. A arte é tão emocionante que vale a pena trabalhar, neste centro, para permitir que os alunos venham aqui completar os conhecimentos que adquiriram na escola. Esse professor apanhei-o no instituto comercial, na escola Tomás Cabreira.
Entre Vistas - Como define o ZEFA?
António Bota Filipe - Uma cidade contemporânea para exemplo das escolas. Este centro chama-se ZEFA em homenagem à minha avó que era a dona destes terrenos. Ela chamava-se Gertudes Josefa e daí vem o nome deste centro ZEFA.
Entre Vistas - Qual foi o percurso de vida do ZEFA?
António Bota Filipe - As primeiras obras começaram em Fevereiro de 1993. Comigo, como servente de pedreiro, e dois pedreiros fizemos esta obra. Com excepção da última peça, porque eu parti uma mão.
Entre Vistas - Considera que este Parque está concluído?
António Bota Filipe - Este parque não está concluído porque faltam os alunos e as escolas interessarem-se por isto. Ele só se completa quando as escolas cá vierem. Em termos de arquitectura e de espaços ele está concluído. Ele foi construído para usufruto dos alunos. Eu não estou muito interessado no turismo.
Entre Vistas - Quais são os projectos futuros para o ZEFA?
António Bota Filipe - Em Julho, fazer uma grande exposição e só convidar as escolas.
Entre Vistas - Qual é o sonho que gostaria de realizar mas ainda não teve oportunidade de concretizar?
António Bota Filipe - Era ter a capacidade física e material para poder, todos os dias, ter a visita guiada de uma escola.
Entre Vistas - Se pudesse recuar uns anos, o que mudaria na sua vida?
António Bota Filipe - Eu não mudava nada na minha vida. Estou satisfeito com a vida que tive. Talvez acabar mais cedo a minha vida. Acho que depois de uma certa idade a vida é chata.
Entre Vistas - Através do nosso Blogue que mensagem gostaria de enviar aos jovens portugueses?
António Bota Filipe - Gostaria de lhes dizer para que não sejam conservadores… sejam diferentes uns dos outros, para que o social evolua.

António Bota Filipe ao Raio X

Entre Vistas - Desporto preferido?
António Bota Filipe - Windsurf.
Entre Vistas - Local preferido para passar férias?
António Bota Filipe - Praia do Barril.
Entre Vistas - Cidade portuguesa preferida?
António Bota Filipe - Lisboa.
Entre Vistas - País que mais gostou de visitar?
António Bota Filipe - Estados Unidos da América… sobretudo Nova Iorque.
Entre Vistas - Prato de comida favorito?
António Bota Filipe - Açorda com peixe assado ou com sardinhas.
Entre Vistas - Estação do ano preferida?
António Bota Filipe - Primavera/Verão.
Entre Vistas - Animal de estimação?
António Bota Filipe - O cão.
Entre Vistas - Música preferida?
António Bota Filipe - “A Estrela da Tarde” do Carlos do Carmo… tenho uma história com essa estrela da tarde.
Entre Vistas - Livro que mais gostou de ler?
António Bota Filipe - “Como conseguir amigos” .
Entre Vistas- Artista plástico favorito?
António Bota Filipe - Júlio Pomar e Cabrita Reis.
Entre Vistas - Cor preferida?
António Bota Filipe - O Arco-Íris.
Entre Vistas - Maior virtude?
António Bota Filipe - Ser solidário.
Entre Vistas - Maior defeito
António Bota Filipe ? A teimosia.
Entre Vistas - O que mais detesta?
António Bota Filipe - A estupidez… o ser conservador.
Entre Vistas - O que mais lhe dá prazer?
António Bota Filipe - Ir à praia passear… estar em contacto com o mar. Eu gosto mais do mar do que do  campo. Quando o mar está bravo é fantástico. O mar traz-me outras sensações… o movimento, as ondas e a espuma… tudo aquilo envolve as pessoas. Começo logo a pensar nos barcos que andaram por aí a fora e a criar um mundo no meu imaginário.

Entrevista conduzida por Larisa Sas e Daniel Pereira
Guião da entrevista - produção colectiva 6ºA (2009/10)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Entrevista com o escritor António Torrado



Entre Vistas - Na sua infância era um bom leitor?
António Torrado - Era um razoável leitor. No próximo sábado, vou participar em Silves numa conferência, onde vou falar sobre os livros da minha vida. Esta conferência faz parte de um ciclo organizado pela biblioteca de Silves. Felizmente, que não me pediram um livro mas um conjunto de livros. O primeiro livro de que vou falar é da “Cartilha Maternal” de João de Deus, foi o livro que me abriu para os outros livros todos. Nessa altura, os livros não eram tanto atraentes quanto isso. Havia poucos livros para jovens e eu comecei a ler cedo demais, a ler livros que ainda não estavam bem para a minha idade. Eu não era um leitor que só lia. Também, praticava desporto, praticava hóquei em campo. É um desporto que em Portugal não tem muitos praticantes mas é uma modalidade olímpica, ao contrário do Hóquei em patins que ainda não é uma modalidade olímpica e também, praticava remo, porque morava à beira Tejo. Mas lia… Era particularmente atraído pelos livros que ainda não me eram destinados.
Entre Vistas - Como é que se iniciou na escrita?
António Torrado – Eu comecei por ser jornalista. A minha actividade de professor, a certa altura da minha vida, foi interrompida. Como eu trabalhava como jornalista num jornal de Lisboa, que se chamava “A Capital” e era o jornalista mais novo da redacção, atribuíram-me o suplemento infanto-juvenil que saía aos Sábados. Às Sextas, saía também um suplemento juvenil dirigido por um senhor que, anos mais tarde, viu ser-lhe atribuído o prémio Nobel da Literatura, de nome José Saramago. O meu suplemento tinha histórias, adivinhas, lengalengas, e poemas… e assim, eu fui ganhando o gosto pela escrita. Foi à conta desta situação, juntando as histórias que eu tinha criado para o suplemento do jornal que eu publiquei o meu primeiro livro.
Entre Vistas – De onde lhe vem a inspiração para criar as histórias e as personagens?
António Torrado – Para já, vem deste auditório, deste tipo de sessões. Uma das formas de eu recarregar as minhas pilhas é estar aqui convosco, perto deste auditório cheio de juventude. Estar convosco é uma forma de ganhar inspiração e de continuar a escrever.
Entre Vistas – De todas as obras publicadas qual ou quais as suas preferidas?
António Torrado – Eu quase tenho vergonha de dizer que escrevi para cima de 130 livros… E também escrevi peças de teatro, que vão juntar-se aos livros e dão mais um tanto… e ainda argumentos para cinema e para televisão, argumentos de ficção que escrevi porque trabalhei na RTP. Durante muitos anos, fui produtor principal e foi argumentista e guionista. Tudo isto dá por junto mais 25 trabalhos a juntar aos livros. Agora, lembrar-me de todos eles… não me lembro. Dizer qual é aquele que eu gostei mais é ainda mais difícil. Gostar, não sou capaz de dizer, mas custar, isso já sou capaz de dizer. O livro que me custou mais escrever foi um livro que eu fiz em dor física, em tremenda dor física. Eu tinha de entregar na editora, até Março, um livro que se destinava a ser publicado, no Natal de 1999, para o livro ser ilustrado, ser montado e ser posto no mercado em Outubro ou Novembro. Entretanto, no Natal anterior… no Natal de 98, dei uma grande queda numa escada de pedra e fracturei o cóccix. Durante três meses, não me podia sentar. Ou, estava deitado de barriga para baixo, ou, em pé. Eu tinha de fazer o livro. Tinha o livro já na cabeça, tinha de o fazer até Março… porque fazia parte do contrato… e escrevi-o. Escrevi-o numa bancada alta, em pé. Nunca, tinha experimentado… já sabia que havia escritores que escreviam em pé… O Eça de Queiroz, por exemplo, e escrevi em dor física. Ao escrever, esquecia-me das dores, porque a escrita também serve para nos aliviar das dores. Dores físicas, dores morais e a leitura também servem para isso.
Entre Vistas – De todas as obras que escreveu, qual ou quais as que lhe deram mais trabalho?
António Torrado – Esta, por exemplo, porque eu estava em pé, quanto muito para ver televisão podia estar de joelhos. Só de me lembrar disso, ainda tenho umas dorezitas.

António Torrado ao raio X


Entre Vistas – Um livro preferido?
António Torrado – Não vou falar de um livro preferido. Como já vos disse, no próximo sábado, vou falar da “Cartilha Maternal”, mas gostaria de vos falar de um livro que me marcou muito… “A Montanha Mágica” de um escritor alemão chamado Thomas Mann, mas isso é um livro para vocês lerem lá mais para adiante.
Entre Vistas – Um autor ou uma autora preferido?
António Torrado – Eu tenho muito prazer em saber que nas estantes das bibliotecas, quando os autores estão distribuídos por ordem alfabética, os meus livros estão chegadinhos aos livros de um grande escritor português… Torrado é vizinho de Torga… Torga primeiro, e Torrado depois… Tenho a impressão que não há outro escritor entre nós. Isso, dá-me um imenso prazer porque fico ombreando com um grande escritor que eu sempre admirei desde que comecei a lê-lo e que eu mal conheci quando estive em Coimbra. Também, tenho um grande prazer de saber que os meus livros de teatro estão perto de um grande escritor dramaturgo russo chamado Tchekov… Tchekov e Torrado também estão perto um do outro… não sei se aparece algum outro pelo meio… mas dos dramaturgos que eu conheço, não estou a ver ninguém… e antes de nós, está outro grande escritor dramaturgo que se chama Shakespeare… e são estes os escritores que eu tenho como principais alvos da minha admiração.
Entre Vistas – O filme da sua vida?
António Torrado – Um dos filmes da minha vida foi “Do Céu caiu uma Estrela”, com o actor James Stewart, outro foi “A Quimera do Ouro”, com o Charlot, mas tenho muitos. Eu fiz cineclubismo e gosto muito dos filmes antigos, anteriores ao meu tempo de cinema. E recomendo-os para quem gosta de cinema.
Entre Vistas – A cidade que mais gostou de visitar?
António Torrado – Muitas, mas destaco o Rio de Janeiro.
Entre Vistas – A cidade que gostaria de visitar?
António Torrado – S. Petersburgo que ainda não conheço. Gostaria de fazer um cruzeiro começando pela Suécia, navegar no mar báltico, tocar a Lituânia e a sua capital Riga e descer até S. Petersburgo.
Entre Vistas - Um dia especial?
António Torrado - Por acaso, o dia do meu aniversário não é um dia que seja, para mim, muito especial. Talvez, o dia do aniversário dos meus filhos… Não sou muito dado a datas.
Entre Vistas – Um desejo?
António Torrado - Os desejos não se contam. Os desejos para eles se realizarem têm que ficar secretos… se não… não há hipóteses… Os desejos e os segredos guardam-se. Tenho-os… mas agora não digo.




Como disse, na entrevista, sessões como esta são particularmente inspiradores para a minha vida profissional da escrita para os mais jovens. Se no fim da minha intervenção me agradeceram com palmas, eu retribuo e agradeço a vossa participação atenta com o meu "Bem Haja!". Também merecem palmas.
António Torrado
Dez. 2009
 
Entrevista conduzida por Bárbara Tomé Marques e Rodrigo Miquelino
Guião da entrevista - produção colectiva 6ºA (2009/10)